Vivemos em tempo de avassaladora pandemia do “coronavirus”, que aflige o mundo e desencadeia uma grande crise na saúde, na economia, em nossa vida e em nossas emoções.  Muitas notícias tristes invadem nossa comunicação diária trazendo um misto de informação, insegurança e medo. Entretanto, temos também muitas lições que podemos tirar de toda essa situação. Seria muito complexo, e não é esse o objetivo de um simples artigo, tentar refletir de modo abrangente, as possíveis lições a serem tiradas dos fatos que temos vivido. Arrisco-me aqui a enfocar apenas algumas delas a partir dos âmbitos: pessoal, familiar, social e mundial.

Por força das circunstâncias, fazemos a experiência de como somos frágeis e como um vírus microscópico nos rende a todos e põe nossa vida em risco. Diante de tal ameaça, de nada valem os recursos do poder, do dinheiro, do status social, somos todos igualmente vulneráveis. Nessa situação, é bonito ver inúmeros exemplos de solidariedade de pessoas que, preocupadas com outras que compõem grupos de risco, se dispuseram a ajudar com as compras, pequenos serviços e auxílio para desvalidos. Formaram-se redes de solidariedade. Cresceu a criatividade. Incrível também foi perceber como, de uma hora para outra, tivemos que aprender ou dar mais atenção a normas mais rígidas de higiene e cuidado pessoal: como lavar frequentemente as mãos; usar álcool gel; tossir ou espirar cobrindo boca e nariz com lenço ou com o antebraço; como evitar o que pode ser fonte de contaminação; como utilizar máscaras de proteção, etc. Oxalá, quando superarmos a crise, tais hábitos de higiene e cuidados sejam incorporados ao nosso dia a dia.

No âmbito familiar, mesmo devido a uma convivência forçada, a quarentena aproximou e gerou maior interação entre casais e mais proximidade entre pais e filhos que juntos assistiram a filmes, criaram brincadeiras para passar o tempo, conversaram mais, assumiram conjuntamente tarefas do lar. Quantas famílias, mesmo impossibilitadas de irem às igrejas, fizeram de suas casas lugares de oração e uniram-se a Deus na mesma prece. Quantos idosos, que por estarem mais resguardados, tiveram intensificada a atenção de seus familiares e ouviram tantas palavras de afeto, mesmo que por telefone ou aplicativos de comunicação. Quantos tiveram que reaprender as regras da boa convivência e se tornaram mais próximos. Quantos foram os exemplos sobretudo de profissionais da saúde que, por abnegada atenção a doentes que nem conheciam, tiveram que suportar o distanciamento de seus familiares para não os expor ao risco de contágio; exemplos de duplo cuidado e altruísmo.

No amplo contexto social as circunstâncias nos fizeram perceber como não só precisamos, mas dependemos uns dos outros. Passamos a enxergar e a perceber a importância de quem produz bens e alimentos, de quem transporta mercadorias e não as deixa faltar nos supermercados, de entregadores, garis, coletores de lixo, pessoas que mantém o fornecimento de gás, energia elétrica, água, assim como o serviço de ágeis operários a construir hospitais de campanha… Todos dependemos uns dos outros. …. aí vem a pergunta: por que então tanta disparidade social se o trabalho de cada um é tão necessário para todos? Provocativo foi perceber como o necessário isolamento social nos levou a descobrir quantas pessoas poderiam trabalhar em casa e como a educação feita à distância ganhou com a tecnologia, que é um de seus frutos. Ficou escandalosamente evidente como a endêmica falta de investimentos em infra estrutura (e também em ciência), compromete a vida de tantas pessoas fazendo com que lhes falte até o mais básico, como água para lavar as mãos, atitude repetidamente recomendada em meio a essa pandemia. O combate para erradicar a corrupção e acabar com privilégios poderia evitar esse flagelo do povo, sobretudo dos mais pobres. Mais do que socorro imediato, os mais vulneráveis precisam da efetiva atenção dos governantes e da sociedade organizada em vista à inclusão cidadã.

Mundialmente, com a redução da atividade humana, houve sensível redução da emissão de gases, a poluição ambiental e sonora diminuiu. Mesmo que alguns insistam em negar, pudemos perceber que a ação humana é determinante para o futuro do planeta. Um articulista de um dos grandes jornais, acertadamente, escreveu que o mundo tem limites artificiais e nós somos unidos pela natureza, também oceanos e atmosfera são um só para todos e nós somos globalizados no bem e no mal. Somos humanos e responsáveis uns pelos outros. Depois dessa pandemia o mundo e nós não poderemos continuar como antes, todos teremos lições a aprender e a ensinar.

Dom Wilson Angotti

Fonte: diocesedetaubate.org.br

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